A bela e a fera

A bela e a fera
arte de Mateus Rios, para adaptação realizada por Susana Ventura

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

'Para maus tempos, bons livros' - o desafio!

Ontem terminou, entre sorrisos e olhares emocionados, 'Para maus tempos, bons livros: um percurso por livros destinados a jovens leitores', na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Cinco encontros em seis semanas. Todos os participantes tiveram muito trabalho e foram valentes. Defrontar-se com questões como guerra,(i)migrações, exílio, com questões relativas a refugiados no mundo e, em contraponto, ver como a vida também pode ser complicada em tempos de aparente paz não é tarefa fácil para ninguém. O elenco de livros foi, no mínimo, desafiador. Comecei a me desesperar (literalmente) quando vi o que houve na Hungria em setembro passado. A massa humana amontoada na estação de trem de Budapest e toda a loucura que se seguiu mexeram comigo. Antes disso já acompanhava apreensiva, triste, estarrecida, às levas de pessoas que vagavam pelo Mar Mediterrâneo... Mas setembro foi demais. Sentindo-me mal, pensei o que eu podia fazer: comecei a juntar livros e vaguei eu mesma, bem perdida, em visitas aos lugares que costumam acolher meus projetos, dizendo que queria falar sobre isso, que queria ler livros para jovens PARA e COM adultos para ver se a gente podia acordar. Ouvi vários 'nãos'. A Casa das Rosas disse 'sim' (como sempre). Fizemos juntos o percurso e agradeço. Fiz alguma coisa, continuarei fazendo mais coisas. Mesmo que elas não movam o mundo, elas movem o mundo de algumas pessoas (disso eu sei). Fizemos um percurso pelos livros abaixo relacionados (e quem se der ao trabalho de olhar a lista, verá que ela tem contrapontos com a vida vivida em paz, mas quando também a vida é difícil e exige luta contínua). Em tempos tão sombrios (ah, como estão sombrios), cada um luta como pode. BRECHT, B. ´A cruzada das crianças`. Editora Pulo do Gato CALI, D. e BLOCH, S. ´O inimigo´. Cosac & Naify CRISTINA, H. e KONO, Y. 'Com 3 novelos'. Planeta Tangerina MARQUES, J.L e RÔMOLO. 'Os meninos da biblioteca'. Editora Biruta MATEO, J.M. e PEDRO, J.m. ´Migrar´. Editora Pallas  MATEOS, M.C. ´Migrando´. Editora 34 BUITRAGO, J. e YOCKTENG, R. ´Eloísa e os bichos´. Editora Pulo do Gato TAN, S. ´A chegada´. SM Editora  GARLAND, S. ´Um outro país para Azzi´. Editora Pulo do Gato VENTURA, S. ´A kantuta tricolor e outras histórias da Bolívia´. Volta e Meia. SILVEIRA, M.J. ´Malcriadas´. SM Editora  M ACHADO, A.M. ´De olho nas penas´. Salamandra.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Sobre curadoria

Realizar curadoria é um desafio bastante complexo. Imagine o leitor a seguinte encomenda: ´Com o orçamento de 150 reais, elaborar um almoço para 6 pessoas. Você não conhece as pessoas, mas tem sobre elas algumas informações: têm entre 10 e 80 anos, escolaridade variável e convém que se sintam agradadas. É também esperado de você que consiga para o almoço o melhor que o orçamento permitir (e que seu conhecimento de culinária saiba trabalhar). O trabalho resultante deve ser leve sem ser inconsistente; inovador sem ser incompreensível; profundo sem ser hermético e popular sem ser superficial. Em tempo: os convidados saberão do cardápio com uns 15 dias de antecedência e... podem sequer aparecer! Mas também pode ser que tragam consigo alguns amigos (ou até mesmo vários amigos). Se vier gente demais é sorte (mas prepare-se para as reclamações).´ Realizar curadoria é mais ou menos isso. Eu particularmente adoro observar esse tipo de trabalho e, no momento, estou integrada à equipe de criação da coleção ´Minha Primeira Biblioteca´, da Folha de São Paulo, o que nos fez trabalhar durante alguns meses num processo delicioso. O ´almoço´ está prestes a ser servido e estamos todos bastante ansiosos pelo resultado. As curadoras do projeto literário foram Maria Silvia Pires Oberg e Januária Alves que, com delicadeza e alegria orquestraram a brigada de escritores que revisitaram 28 clássicos das literaturas europeia e norteamericana para construir textos novos, genuinamente brasileiros e que se mostrassem à altura dos originais que, hoje, dificilmente seriam lidos na sua integralidade (mesmo por adultos). A escolha cuidadosa da equipe, a realização dos convites, a delimitação das datas, a escuta das dúvidas e angústias inerentes ao processo de criação foram apenas algumas das enormes atribuições da curadoria. Agora toda a equipe está à espera. Que venham os leitores. Neste momento, agradeço imensamente às nossas curadoras e à equipe querida da Folha de São Paulo, que propiciou a reunião de gente tão diferente, talentosa e especial.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

'Beleza Negra' chega às bancas, iniciando uma bela Coleção

Uma nova coleção começará a chegar às bancas de jornais no próximo dia 28 de fevereiro. 'Minha primeira biblioteca' traz adaptações de 28 clássicos, realizadas por uma equipe muito competente e querida. Foi uma honra ser convidada por Maria Silvia Pires Oberg para compor o grupo de adaptadoras que trabalhariam sobre clássicos da literatura europeia e norteamericana e colaborar com a elaboração de dois títulos: 'Beleza Negra - Memórias de um cavalo' e 'As aventuras de Tom Sawyer'. Quem me conhece sabe da minha preocupação em ter livros acessíveis (e minha angústia ao perceber os nossos graves problemas de distribuição no Brasil e a ausência de reposição em bibliotecas, para além da falta de livrarias). Assim sendo, o convite para integrar a equipe ao lado de pessoas queridas e também de novos parceiros, trouxe junto a incrível possibilidade de ver dois títulos meus em bancas de jornais. Na primeira semana, 'A volta ao mundo em oitenta dias', do amado Júlio Verne, virá com um título que eu escrevi, a partir do clássico de Anna Sewell: 'Beleza Negra - Memórias de um cavalo'. Estou, é claro, ansiosa para ir à banca de jornal e ver o 'meu' Beleza ali. Ah, este assunto renderá muitos posts, mas agora está na hora de COMEMORAR!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Mistério...

- Temos feiticeira? Sim, sim, temos. - Dragão, temos? Sim, de 3 cabeças, 6 ou 9, pode escolher. Ah, temos um ogro também: gosta de cafuné e tem 3 cabeças. - Não. Esquece o ogro! Ok, esqueço o ogro... - Temos unicórnio? Ih, amiga, unicórnio não temos. É problema? - Não, mas como estamos de objetos mágicos? Temos alguns, preciso verificar. - Então, tudo bem, a gente dá um jeito com uma bota mágica... Bota mágica? Não temos não, temos caixa mágica, serve? - Serve... aliás, ela faz o que mesmo? (Conversa de escritoras no dia da mulher. Um bolinho de chocolate para quem descobrir a identidade das duas)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Eu vou de táxi

Eu vou de táxi... (Fim do evento no Museu do Fado. Táxi para passar em casa, pegar a mala e rumar para o aeroporto de Lisboa. O rádio fala da ventania que vem da Espanha e ameaça fechar tudo... ) - Ai, minha senhora, de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos, já dizia minha avó...e eu me pergunto o motivo. Vai ver alguma princesa que se casou com príncipe de lá e não foi feliz. Aquela gente... (Indo de Pinheiros para Congonhas, o taxista freia na primeira esquina e encosta junto da calçada) - Aeroporto, a senhora disse? Então vamos voltar e pegar a mala. A senhora parece mesmo muito cansada e não dá para viajar só com essa bolsa, não é? Esqueceu a mala, mas não se preocupe: isso é normal... (Mesma noite, chegando ao aeroporto da cidade desconhecida perto da meia noite. Só com aquela bolsa mesmo. O simpático taxista me espera com uma plaquinha na mão. Leio meu nome e aceno. Vinte minutos de viagem até o hotel indicado pelos organizadores da Feira e...) - Susana, assine aqui o boleto. Pronto. Vou lá com você ver se está tudo certo com a reserva. [Protesto!] - Precisa sim, imagina se eu deixo você aqui sozinha e a reserva não está feita E por favor, amanhã não fique andando por aí sozinha. Qualquer problema me telefone, não se acanhe, eu já vi que você não consegue fazer nada sozinha! (Novamente táxi para ir de Pinheiros para o aeroporto de Congonhas) - Se importa de me dizer o nome do seu perfume? Eu vou comprar para a minha mulher. Eu nem sei como me casei com ela porque não acredito no amor . Mas adorei o seu perfume. (Feira literária looonge e o responsável pelo transporte dos escritores, depois de dois dias me ‘transportando’) - D. Susana, pelo amor de Deus como é que ontem à tarde a senhora fugiu de nós e foi tomar ÔNIBUS? Não faça mais isso! Estou com o seu celular aqui e eu vou monitorá-la! Não é porque eu lhe dei o mapa que a senhora pediu que a senhora deva sair por aí como se morasse aqui! A senhora precisa tomar consciência de que é frágil. [Eu sou só espanto e vejo os olhos do interlocutor se encherem de lágrimas de repente] - A gente olha assim para uma pessoa boa como a senhora e se pergunta: que tragédia terá acontecido na vida desta pobre mulher para andar assim sozinha pelo mundo, sem uma ALMA VIVA que a acompanhe? Mas enquanto estiver aqui nós cuidaremos da senhora! (Lisboa, indo do Alto de São João para a Faculdade de Letras) - A senhora gosta de fado? Eu sou fadista. [Digo o lugar que frequento aos sábados] Não posso crer! Eu canto lá aos domingos! Mas cá está o número do meu telemóvel: me avise se vai neste sábado, que passo por lá para cantar um fadinho para a senhora. Aliás, canto um já agora mesmo...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Bilhete - e ele está fazendo um ano...

Faz tempo. 1o. ano do primário. A barafunda de crianças divididas aleatoriamente formava blocos no enorme pátio, que, apesar de sua dimensão, não comportava todas. Filas se espalhavam pelos arredores, desciam rampas, subiam um morrinho de terra batida, desciam de novo pelo cimento, avançavam até o portão da escola. Finalmente entramos para as salas. Primeiros dias de fevereiro: exercícios motores numas apostilas. Aí veio o ‘remanejamento’, após análise do ‘nível’ dos alunos. Classes A, B, C, D, E... até F, G, dependendo da demanda do ano. A,B e C, as classes dos mais ‘espertinhos’, que até aquela fase eram os que tinham mão ‘molinha’ e ‘acertavam’ os tais exercícios motores com melhor exatidão. Entre 40 e 50 crianças em cada sala, uma professora apenas e o grande desafio: ensinar a ler e escrever até setembro, época de receber o Primeiro Livro. Para mim, 1o. ano D antes do remanejamento, depois, 1o. ano A, fila nova acompanhando a professora sorteada para cuidar de nós. Minha professora tinha um nome lindo e eu estava pronta para gostar dela. Acho. ******* Há dois ou três anos me perguntaram sobre ela: - Lembro-me da voz e dos dedos do pé, de unhas sempre pintadas. Ela mudava muito de cor. As unhas cortadas redondinhas... O segundo dedo era muito maior que o primeiro. Ela usava sandálias sempre, mesmo no inverno. E veja bem, que fazia frio lá. ? - Não sei do rosto, não olhava para ela. ? - Dois anos, primeiro e segundo ano. Depois fui para outra escola, do outro lado da linha do trem. ? - Lembro-me também das saias dela – estava sempre de saia - e dos pés. Tem um motivo sim. Acho que tem. ******** A,E,I,O,U, tudo bem. Passamos às sílabas. Ba, be, bi, bo, bu. Ao final de cada jornada com as letras, ir até a mesa da professora ler a página da cartilha correspondente e, se nos saíssemos bem, o grande prêmio, ansiado e maravilhoso: o carimbo no caderno. SIM, eu amava o carimbo – uma Abelha que se podia pintar! E, na volta para a carteira, um loooooongo tempo para pintar a tal abelha (claro, com quase cinquenta crianças para sabatinar, eu poderia ter me tornado Rembrandt se tivesse algum talento...). Hora deliciosa. A cada dia uma novidade para colorir: Abelha, Escola, Igreja, Óculos, Uva. Até que ele chegou: o Cachorro. Lição fácil e o carimbo do cachorro. Uma graça, com o rabo enrolado no ar. Vamos pintar o cachorro. Dia seguinte: lição do cachorro. Vamos pintar o cachorro. Posso fazer manchinhas. Outro dia: lição do cachorro. Listrado. Mais um dia: lição do cachorro. Verde. Dia subsequente: lição do cachorro. Vou rabiscar. Vou abreviar o sofrimento dos meus dois leitores – oi, vocês dois, tudo bem? – 20o. dia: lição do cachorro. Eu espiando o carimbo, já enjoada. Onde será que a professora guardava os outros carimbos? Espichava o olho pela mesa ao repetir novamente as palavras decoradas, já nem acompanhava o dedo que apontava para elas na folha da cartilha. Ah, a professora só trazia para a aula o carimbo do dia... E no dia seguinte e no outro ainda, novamente ‘dia de cachorro’. Ai, meu Deus! Mas havia alguém com mais problemas do que eu. Muitos mais, aliás. Ela. A pobre garotinha que não conseguia ‘aprender’ a lição do cachorro. Seu lugar era lá no fundo. Cabelinho bonito, castanho, liso, repartido ao meio, preso atrás num coque. O rostinho assustado. - CLAUDIOLINDAAAAAAAAAAAAAA! VENHA JÁ AQUI. A professora gritava. A manhã inteira – ou o que me parece hoje que fosse a manhã inteira - ela gritava com a garotinha. A garotinha que não aprendia a lição do cachorro. À minha volta a miudagem se mexia e falava: por causa dela, da Claudiolinda, a gente não passava da lição do cachorro. Cachorro todo dia. Culpa dela. Seis anos e meu senso de justiça apareceu: a culpa não era da Claudiolinda, era daquela agressora com os dedos do pé enormes. Falei um vez só, nem falei, cochichei. Ganhei um beliscão da parceira de carteira. A tortura diária continuou: - CLAUDIOLINDAAAAAAAAAA! A coisa deveria ser intolerável para mim, uma vez que reclamei para os adultos (os mesmos que já tinham me avisado que NUNCA me dariam razão se eu arrumasse QUALQUER problema na escola). Lembro-me do rostinho em pânico da menina a cada vez que era gritado o seu nome. Não durou muitas semanas mais aquele suplício. Claudiolinda foi ‘remanejada’ sozinha para outra sala, passamos para a lição do Dado. A partir dali, a cartilha voou e os carimbos se multiplicaram. Em poucos dias a cota de gritos destinada primordialmente para a Claudiolinda foi redistribuída pelos demais alunos. Para mim sobrou uma fatia pequena: - SUSANAAAAAA, VOCÊ ESTÁ NO MUNDO DA LUUUUUUUA? VIVE SEMPRE NO MUNDO DA LUUUUUUUUUUA. NÃO É POSSÍVEL. SUSANAAAAAA! Dois anos inteiros. Inesperadamente, lá vinha. Assustava um pouco. Incomodava um pouco. Não muito. *************** Por anos, após ganhar alguma autonomia, eu perguntei pela Claudiolinda. Procurei, mas nunca consegui encontrá-la. Mudamos de cidade, inúmeras vezes mudei de escola. Continuei me mudando depois de adulta. Quando tive acesso à internet, sem saber ao certo como funcionava, buscar por informações de Claudiolinda foi das primeiras coisas que eu fiz. Até hoje não consegui encontrá-la, embora continue procurando. Então deixo aqui, no final desta crônica, um bilhete. Quem sabe um dia ele alcance a destinatária? ‘Claudiolinda, eu ainda não te encontrei. E em de 2015 faz 40 anos que a gente entrou no primeiro ano. Queria só dizer uma coisa: no primeiro dia em que aquela professora gritou com você, eu abaixei os olhos e prometi que eu não olhava mais na cara daquela agressora de crianças. E não olhei. Foi só o que eu achei que dava para fazer. Besta, né? Mas foi a única coisa que eu consegui fazer. Sempre que eu penso em você eu choro por aqueles maus tratos. Mas há, por trás das lágrimas, algo que me diz que, se eu te encontrasse, você poderia bem dar uma risada e dizer: ‘Que boba, você. Nem lembro do primeiro ano! Eu, hein?’. Espero muito - você nem calcula o quanto - que possa ser mesmo assim. Que aqueles berros não tenham feito mal a você e que a sua vida tenha sido linda e especial. Eu acabei ficando pela escola toda a minha vida e tenho sido feliz. E eu fiquei forte, hoje brigo de verdade com quem grita com crianças e não trata as pessoas do jeito que elas merecem: bem, muito bem. Pensando hoje na rudeza que era o cotidiano daquelas professoras, eu entendo a dificuldade diária: muitas crianças, nenhuma ajuda, tarefa enorme, salário baixo, vida dura. Entendo que o trabalho era muito difícil e manter a calma talvez fosse pedir demais. Minha cabeça entende, mas meu coração, esse, não entende nada e continua a querer saber se está tudo bem com você. Receba um abraço da sua colega de classe – aquela bem pequena, quieta, de cabelo enroladinho preso, de óculos, bota ortopédica preta, sentada na frente, dividindo carteira com a Márcia, a loirinha falante, Susana’