A bela e a fera
arte de Mateus Rios, para adaptação realizada por Susana Ventura
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Nova York em maio
A Brasil em Mente (http://www.brasilemmente.org/) anunciou hoje a palestrante principal de sua próxima Conferência sobre o Ensino, Promoção e Manutenção do Português como Língua de Herança, que ocorrerá em maio de 2016 em Nova York e, para minha alegria, sou eu!
Venho acompanhando o trabalho de excelência realizado pela Brasil em Mente há cerca de dois anos e conheci a Felicia Jennings-Winterle, que dirige a BEM, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
Muitas conversas virtuais, alguns encontros em São Paulo, uma série de textos a cruzarem os ares nestes anos até que chegássemos ao dia de hoje. Há Em sua 3a. edição a Conferência gira em torno da questão "Quais são as heranças dessa herança?" e mais sobre o evento pode ser lido na chamada que está no link
http://www.brasilemmente.org/conferecircncia-2016-plh-quais-satildeo-as-heranccedilas-dessa-heranccedila.html
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Um livro que começa a ficar pronto
Há várias fases do trabalho de escritora: do nascer de uma ideia ao deambular para falar sobre algum livro (às vezes anos depois de sua publicação, quando é preciso ir à estante, pegar seu exemplar de trabalho e voltar a ler, reencontrando-se com algum aspecto do livro ou com ele como um todo).
Uma das fases mais emocionante é a chegada de provas de um novo livro. Há casas editoriais que ainda mandam provas em papel (eu acho uma delícia). E aquele maço de folhas vai e volta, marcado a lápis, depois a caneta, às vezes a várias cores, em idas e voltas.
Na maior parte das vezes, no entanto, as provas são virtuais: o arquivo chega, para ser aberto e revelar surpresas.
Houve um livro, o meu primeiro infantil, que eu não tive coragem de abrir sozinha. Apoderou-se de mim estranho medo. Telefonei a uma amiga, mandei-lhe uma cópia e juntas abrimos e vimos, cada qual em sua casa.
Ontem chegaram provas e, com elas, a emoção de ver, pela primeira vez, em quatro cores, as ilustrações da Carla Irusta para o livro. E de ver o projeto gráfico proposto por outra fera, a querida Carla Arbex. E de enfrentar de outro jeito o texto que, há dois anos, começou a sair da minha cabeça e teve muitas etapas até chegar à sua forma final, em outubro de 2014. Para marcar este Dia de Reis, tão especial para mim, faço este post e divulgo uma das imagens criadas pela Carla Irusta. Outro dia eu conto mais, bem mais, sobre este próximo livro.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné
Apresentado ao público durante a última Feira do Livro da USP, no início de dezembro de 2015, o livro que agora chega às livrarias é resultado de uma longa pesquisa e de uma intensa troca de ideias entre a editora, as autoras e a idealizadora da coleção.
Cabe contar um pouco da história da coleção de três livros que se inicia pela publicação de "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné".
Após o trabalho de pesquisa que eu havia realizado no ano de 2013 e que resultou nos livros "O Príncipe das Palmas Verdes e outros contos portugueses","O tambor africano e outros contos dos países africanos de língua portuguesa" e "A princesa que ria rosas e outros contos húngaros" (no prelo), comecei uma pesquisa sobre livros brasileiros antigos cuja temática fosse conto popular.
Passei algumas semanas de janeiro de 2014 em Porto Alegre, onde pesquisei no acervo da Biblioteca Lucília Minssen, que está cheio de tesouros incríveis. Além da pesquisa na biblioteca, entrevistei vários bons leitores locais, que foram crianças leitoras na década de 50. Alguns meses depois, organizando o material de pesquisa, pensei na necessidade de retrabalhar os antigos (e esquecidos) contos que eu havia compilado. No entanto, com uma visão distinta daquela predominante no passado: em torno de nações e nacionalidades.
Em reuniões com o grupo de crítica literária de literatura infantil ao qual pertenço, o exame da produção atual em torno dos contos de fadas, contos maravilhosos ou contos populares e as contribuições das colegas que se encontram na linha de frente das escolas de Ensino Fundamental, foram aparecendo melhor os contornos do trabalho que eu gostaria de fazer.
Chamei Helena Gomes para pensar comigo naquilo que nomeamos primeiramente de "contos temáticos". O objetivo era abordar questões importantes a partir do material que eu havia pesquisado. Um livro de contos que fizesse refletir sobre os valores que estavam subjacentes aos contos populares. Um feixe de temas nos tomou o pensamento por alguns meses, até que chegamos à ética como um eixo central.
Em abril de 2014 levamos esta ideia para Eny Maia, da Editora Biruta, que, com sua visão editorial aguçada, percebeu que ali estava não um livro mas uma pequena coleção. De volta para a mesa de trabalho coletiva, Helena e eu definimos os 3 volumes, em que contos ajudariam jovens leitores a pensar sobre ética, situação da mulher e justiça. O que se seguiu foi um ano de trabalho intenso, mais pesquisa, um trabalho intenso de seleção de contos, a realização, junto com a editora, de convites a vários colaboradores que se juntaram ao projeto, como a jovem autora e feminista Geni Souza, e o artista plástico Alexandre Camanho, encarregado de ilustrar esse rico passado que gostaríamos de fazer presente.
O primeiro volume está aí, pronto para conquistar o coração dos leitores.
sábado, 26 de dezembro de 2015
Etapa de pesquisa: a delícia
Sou mais leitora do que escritora, mais pesquisadora do que professora. A etapa em que estou mergulhada é de pesquisa, para uma nova coleção de livros que começará a materializar-se no segundo semestre de 2016. Para mim, esta é a fase mais interessante, porque preciso ler, descobrir, pesquisar, selecionar.
Livros e ensaios e arquivos que coletei nos últimos 2 anos e que amigos coletaram para mim em diversos países.
Surpresas em quatro diferentes línguas, que vão sendo desvendadas, anotadas, organizadas. A mesa de trabalho mostra a cartografia atrapalhada, com pilhas de livros arrumados - por enquanto - pela língua em que estão escritos. Mas já começou outra organização: listas de animais, listas de lugares, mapas, listas de temas... Uma maluquice que, em pouco tempo começará a se tornar o sonho possível. Não há, possivelmente, ninguém que se divirta mais do que eu, e trabalhando!
Quando o carteiro chegou...
Dezembro e o carteiro chegou na minha ausência. E deixou um pacote muito bonito, azul. Dentro, o novo e tão esperado ´Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné´, parceria com Helena Gomes, com ilustrações de Alexandre Camanho e edição da Biruta. Uma delícia de livro, lindo, lindo.
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Morrendo em silêncio, mas não tanto
‘Nasci para ser quieta, mas no meio do caminho alguma coisa deu errado. Muito errado.’ Quem me conhece com certeza já me ouviu dizer isso mais de uma vez.
Professora e pesquisadora, fui obrigada a ser menos quieta do que desejaria. Lá pelas tantas, desejando ser somente aquilo que já era mesmo – professora e pesquisadora -, acabei por entrar no mundo editorial de maneira um tanto casual.
Passaram-se alguns anos e eis-me aqui, autora de cerca de uma dúzia de livros, a maioria destinada às crianças e aos jovens, e neste momento estou, com todo um setor, morrendo em silêncio.
Mas, fiel às palavras com as quais iniciei esta crônica, acho que é chegada a hora de falar um pouco a respeito: as pequenas editoras - que publicam os meus livros - estão morrendo, desempregando pessoas, desmontando projetos editoriais de décadas.
E isto está determinando tanto o fim desta parte importante da minha vida quanto atingindo um sem número de pessoas.
Na outra ponta desta cadeia produtiva, ou seja lá como decidam chamar isso tecnicamente, há crianças e jovens, e eles não estão recebendo livros de literatura.
Em 2015 eles não receberam e não receberão livros de literatura.
Porque a quase totalidade dos programas que entregam livros de literatura para bibliotecas escolares estão paralisados ou foram cancelados.
E não há sinais de que serão retomados.
Então eu preciso escrever algo a respeito: porque a leitura literária é vida. Para todos. Não foi para a minha geração, mas era uma realidade no país há pelo menos duas décadas. E atingia os alunos de escola pública, como deveria ser. Porque a leitura literária abre possibilidades incomensuráveis.
Aí está um dos problemas, a palavra linda que é ‘incomensurável’: aquilo que não pode ser medido. Eu não consigo medir o benefício que a leitura literária traz pelos sistemas de medição mais comuns. Mas eu preciso falar sobre isso, porque é uma certeza que eu tenho (e eu tenho poucas).
Há um ensaio que anda há muito tempo comigo. Ele se chama ‘O direito à literatura’ e foi escrito pelo professor Antonio Candido.
Entre muitas outras coisas, esse ensaio me ensinou que nós não temos o direito de julgar o que os outros precisam em termos de bens culturais; que nossa obrigação é oferecer o melhor, sempre, para que as pessoas façam suas próprias escolhas, levadas por seus anseios.
Oferecer o melhor: é isso que não está mais sendo feito.
Muito pelo contrário, não está se oferecendo nada.
E o nada, quando se é criança ou jovem é muito ruim. É desastroso. Porque a gente precisa de muitas coisas que a literatura oferece: alimento, alento, refúgio, alicerce e força.
Sugiro que se pare um pouco, para dizer aos outros e para ouvir dos outros - adultos e crianças que têm sido leitores - o que significa a leitura literária.
Mas será que adianta? Adianta sim, porque tem outra coisa linda que eu aprendi com Antonio Candido: o tempo é o tecido de nossas vidas. E agora é tempo de falar sobre isso.
Eu parei hoje para partilhar a minha indignação e a minha tristeza, porque um mundo vai desaparecer e se apagar para milhões de crianças e jovens que não vão nunca ter acesso às coisas maravilhosas que a leitura literária traz.
E isso é desastroso. É uma vergonha. É um horror.
Vamos falar a respeito ou vamos todos mesmo morrer em silêncio?
domingo, 1 de novembro de 2015
Um trabalho tão delicado
Escrever para crianças e jovens é um trabalho delicado. Eu tenho este ofício: escrevo para pessoas que não conheço e que estão no começo de suas vidas. Eu espero que essas vidas sejam tão longas e felizes quanto possível.
Mas escrevo sabendo que serão vidas difíceis, porque toda vida humana é difícil.
Preciso falar com essas pessoas agora, quando a trajetória delas apenas começa. Não me permito mentir, mas devo ser prudente: é preciso ser verdadeira, mas ser delicada e, acima de tudo, não retirar-lhes a esperança, nunca.
No meu projeto de escrita entra também o humor, porque o humor alivia e ajuda.
E, sobretudo, entra algo que considero essencial: a prática do respeito.
Não sei quem me lerá e o que pode já ter acontecido naquela (ainda) curta existência. Embora a torcida seja para que a maior parte das experiências tenha sido boa até o momento em que abrir o meu livro, eu sei que pode não ter sido assim.
Exerço, assim, o respeito, mas acredito no sonho e digo em quase todas as obras algo que posso escrever sem risco de faltar com a verdade: a vida é incrível e as possibilidades são imensas (qualquer que tenha sido o começo, qualquer que seja a circunstância: onde há vida há esperança, mistério e chances de mudança).
Um trabalho tão delicado quanto necessário, e que faço em silêncio, torcendo para que o resultado possa alimentar a esperança e plantar uma semente que vire árvore, que dê em sombra e frutas para acolher e ajudar nos momentos difíceis.
Ao meu lado está uma equipe de valentes, em várias casas editoriais e também em ateliês, livrarias de rua, escolas de vários portes, bibliotecas. Todos estamos lutando e conscientes da importância do nosso trabalho. A pergunta do dia é: até quando resistiremos diante de realidade tão dura?
Assinar:
Postagens (Atom)


